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PENSAMENTOS LEONINOS 109 - DEPOIS DE BARCELONA
Pensamentos Leoninos 109

Pensamentos 2

A técnica do melão ou, depois de Barcelona

Nesta altura já todos conhecemos diversas opiniões sobre as razões da pesada e deslustrante derrota em Camp Nou, perante um Barcelona que esta época ainda não havia conseguido um resultado compatível com as suas tradições.

Derrotado no jogo para a Taça da Catalunha e com apenas 1 ponto conquistado em dois jogos da Liga espanhola, era um Barcelona em crise, afirmava-se, enquanto do Sporting se dizia ter começado a época em franca e evidente posição de forte candidato a campeão e a bons resultados nas competições que disputasse.

A conquista da Supertaça foi o deslumbramento que outros jogos que se seguiram não justificaram totalmente, apesar de ganhos.

Na maioria das opiniões, a culpa é dos jogadores que não se empenharam, não puseram em prática o que se havia planeado e sei lá que mais.

É fácil culpar quem, dentro do campo, se expõe ao que possa acontecer, confiante na estratégia de quem o comanda para conseguir o resultado que mais se deseja.

Analisemos esta questão de não por em prática o que foi planeado, o significado que esta afirmação possa ter, o que é um plano e como se faz.

Planear significa organizar, no espaço e no tempo, uma série de acções com o objectivo de alcançar um determinado resultado.

O resultado é por nós definido, mas o plano é concebido em função de factores aleatórios ou que não dominamos completamente e, tantas vezes, nem sequer conhecemos muito bem, para além dos meios sempre escassos de que se dispõe. Daí que os “planos” tenham de ser ajustáveis perante as circunstâncias que se nos deparem e as dificuldades não esperadas que se revelem.

No futebol é assim também, com a agravante de termos de enfrentar não apenas circunstâncias mas, também, uma vontade que tem por objectivo contrariar os nossos propósitos. Se o objectivo é ganhar, como o do adversário deve ser também, é necessário fazer melhor do que ele, contrapondo à sua estratégia uma estratégia melhor, à sua energia uma energia maior e ao seu desejo de vencer um desejo bem maior ainda.

Desconhecida a estratégia do adversário, nada mais nos resta fazer do que considerar variadas hipóteses sobre qual ela poderá ser e, para cada uma das consideradas, ter de reserva outra que a possa contrariar e superar. Assim, nestas condições, se faz um plano ou, melhor dizendo, se monta um “plano de estratégias”, pois é disso que, deveras, se trata. Um plano que não é categórico nem definitivo, porque terá de se adaptar às circunstâncias que, em cada momento, se depararem, até se atingir uma solução satisfatória.

A alternativa que só os mais fortes podem adoptar, é obrigar o adversário a submeter-se ao nosso “plano”. Seria esse o plano de Paulo Bento, obrigar o Barcelona, no seu campo, à tarefa de contrariar o nosso plano? Estultícia seria, penso eu, esperar que essa pudesse ser a forma de vencer o Barça em Camp Nou.

Assim sendo, que sentido tem insinuar que se perdeu porque se não pôs em prática o que havia sido planeado?

O que se viu no campo não foi mais do que uma equipa perdida a partir dos 3 ou 4 minutos de jogo porque tinha pela frente outra que perecia não ser a que esperava, sem conseguir pôr em jogo qualquer plano de contenção ou de ataque, sem ninguém que a ajudasse a libertar-se daquela teia em que o adversário a envolveu.

Abandonada à sua sorte, a equipa vacilou e perdeu-se por falta de estratégia que pudesse utilizar para suster o seu adversário. Simplesmente isto.

A defesa claudicou e notou-se a falta de um patrão como o era Peter Schmeichel, por exemplo, que transmitia aos seus companheiros indicações e a confiança que Patrício não pode transmitir. Já víramos isso em Madrid. Por maior que seja o talento deste jovem, é um risco confiar à sua inexperiência e pouca idade a enorme tarefa de comandar a defesa. E, por isso, não se pode ignorar o que acontece com Stojkovic.

Faltou no meio campo o patrão que Rochemback não consegue ser por falta de velocidade e pela excessiva inércia que lhe dilata os tempos de reacção que o deixam, tantas vezes, fora das jogadas. A força só não basta.

Na frente faltou a velocidade que Djaló desta vez não conseguiu dar e já não estará ao alcance do esforçado e empenhadíssimo Derlei como se viu em duas ou três ocasiões.

No banco estava Veloso que entrou para o meio campo com evidente melhoria do desempenho deste, mas logo recuou para uma tarefa que não é a sua, voltando o meio campo à sua anterior inépcia!Foi pena porque, conseguida a diferença mínima, os catalães quase perdiam a serenidade e temeram o empate.

Postiga entrou tarde demais e Vukcevic, um poço de energia que poderia dar uma sapatada no jogo, nem sequer estava no banco!

Tal como na guerra, são os “generais” que perdem ou ganham as batalhas, expõem ou preservam os seus exércitos…

Por fim, a “técnica do melão”!

Diz Paulo Bento que as substituições são como os melões que só depois de abertos mostram se são ou não bons. Se não soubermos escolher, o risco de não acertar será maior. Mas até para os melões há técnicas bem conhecidas para os escolher, sem deixar somente à sorte o “melão” que nos vai calhar.

Mas se, por sorte, acertamos num, porque recusá-lo e escolher outro que pode sair mau?

É preciso fazer melhor, muito melhor.

RC, Setembro 2008
 
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