PENSAMENTOS LEONINOS 106 - O SPORTING CP E O FUTEBOL NACIONAL
Pensamentos Leoninos 106
O Sporting CP e o futebol nacional
De um modo bem diferente de outrora, as equipas portuguesas, como as de muitos outros países, utilizam cada vez mais jogadores estrangeiros. Ou será que deveria dizer cada vez menos jogadores nacionais?
A globalização é isto mesmo e a transitoriedade também. Ninguém é de ninguém e nem daqui ou de além, porque é de onde mais lhe convier ou lhe der na real gana.
É um modo de viver e de sentir ou não sentir que alguns pensadores já haviam caracterizado e para cujos efeitos alertaram também.
É, muitas vezes, uma questão de incapacidade ou uma moda a que a falta de personalidade não permite resistir.
Já muito poucos, por certo, se lembram de equipas dos escalões mais altos totalmente constituídas por jogadores portugueses e penso que menos ainda serão os que se recordam de clubes que tinham nos seus estatutos que só poderiam ser representados por atletas nacionais.
Em equipas de escalões inferiores, a presença de estrangeiros era qualquer coisa de absolutamente inexistente ou, a acontecer, ditada por circunstâncias muito especiais.
O futebol, em qualquer das suas modalidades, é o desporto em que tal promiscuidade mais se verifica, por vezes de um modo quase absurdo.
A competitividade é o que conduz a esta situação de puro imediatismo que não é, todos sabemos, a forma melhor de preparar o futuro.
Não é possível fugir desta realidade ou deixar de ser afectado por ela porque o caminho mais fácil é, quase sempre, o que se prefere percorrer.
Acontece com quase tudo. Ao feito por medida sucedeu o pronto-a-vestir, o pronto-a-comer tomou a vez do cozinhado a gosto e até as agências, os anúncios de casamentos e os “chat” de encontros tendem a substituir, se não substituem já, o tradicional e romântico namoro.
Como acontece na demografia em geral, somos um país de emigrante e imigrantes. Os nossos melhores jogadores são imediatamente aliciados com propostas milionárias de clubes estrangeiros ricos, os que se sentem com um pouco mais de jeitinho pensam cedo em carreiras em outros países, com namoradas de luxo e carrões de alta cilindrada, enquanto os “excedentes” da América do Sul, entre outros, procuram aqui uma montra para a Europa ou um lugar mais tranquilo para viver.
Dirigentes de muitos clubes rendem-se ao assédio de empresários que lhes mostram os seus produtos de 1ª e, ainda por cima, baratinhos. Dizem eles, como se o que não presta alguma vez pudesse ser barato.
Ficam esquecidos neste mercado de oportunidades os atletas portugueses que gostariam de se afirmar, para o que teriam tantas capacidades como outros que vêm sabe-se lá de onde.
Prevalece o mau hábito de que um velho dito – “a galinha da minha vizinha é sempre melhor do que a minha” – dá conta da nossa de preferência pelo alheio.
Achei interessante fazer uma breve análise comparativa do que, nesta aspecto, se passa nos três maiores clubes portugueses.
O quadro seguinte regista os números de jogadores dos respectivos “planteis” e as nacionalidades:
clubes
nº jogadores
Nº jogadores por nacionalidades
portug
brasil
argent
outras
Sporting CP
24
14
6
2
2 (2)
SL Benfica
27
9
7
2
9 (8)
FC Porto
27
10
4
7
6 (5)
Total
78
33
17
11
17 (14)
Entre parêntesis o número de nacionalidades.
No seu conjunto, estes clubes, chamados os 3 grandes do futebol português, tem menos de metade de jogadores nacionais, 42%.
Considerando cada um de per si, a percentagem de jogadores nacionais é:
Sporting CP 58%
SL Benfica 33%
FC Porto 37%
O Sporting CP, como em outras épocas também aconteceu, é o clube com mais jogadores portugueses, muito distanciado dos outros dois.
Se considerarmos, ainda, as origens dos jogadores nacionais, verificaremos uma maior diferença, sendo o Sporting CP o que mais utiliza jogadores formados nas suas escolas. Nesta época, oito dos catorze portugueses (57%) são formados no clube, correspondendo a 33,3% do total dos jogadores.
Além disto, o Sporting CP tem, em “rodagem” noutros clubes, bons jogadores formados nas suas escolas, bem como diversos jogadores de outros clubes das duas primeiras ligas também o foram. Curioso não deixa de ser o caso de Fábio Paim, outro talento formado no Sporting CP, que acaba de ser emprestado ao Chelsea de Scolari.
É notável esta estatística que mostra, sem margem para dúvidas, o peso e a importância do Sporting CP no futebol português e por qual razão a sua formação é tão afamada em todo o mundo por onde os seus efeitos se fazem sentir.