Recordo, ainda, a última vez que vi Travassos. Foi na tarde de um dia de Agosto de 1982, numa transversal da Avenida da Igreja, quando entrei numa pastelaria para uma bebida refrescante. Ao vê-lo, corri a uma papelaria para comprar o jornal do Sporting CP e pedi ao Zé que o assinasse, pois sabia que o meu filho Bruno iria gostar de ter a assinatura do ídolo que tantas vezes lhe descrevi. E gostou!
Lembro-me bem de quem tanto admirei como jogador e respeitei como homem simples que respondeu ao pedido que lhe fiz perguntando-me: tem a certeza que o miúdo vai ligar à minha assinatura?
A Selecção da Europa que Travassos integrou, num mês de Agosto, também, foi constituída por nomes famosos do futebol de então:
Buffon (Itália); Gustavsson (Suécia), Van Brandt (Bélgica) e Ocwirk (Áustria); Jonquet (França) e Boskov (Jugoslávia); Sorensen (Dinamarca), Travassos (Portugal), Kopa (França), Vukas (Jugoslávia) e Vincent (França).
Era, então, o ídolo de muita gente. Um jogador extraordinário, daqueles que não tinha jogos bons e jogos maus, porque jogava sempre bem.
Vi-o jogar pela primeira vez logo nos primeiros tempos dos famosos cinco violinos, uma linha avançada terrível onde a velocidade de Jesus Correia, a genialidade de Vasques, a objectividade de Peyroteu e os malabarismos de Albano eram comandados pela ímpar intuição de Travassos para armar ataques mortíferos.
Algumas das grandes equipas europeias de então sentiram a sua eficiência, sofrendo goleadas.
De pequena estatura, Travassos era muito rápido e inventava fintas de progressão e passes que nada ficam a dever aos “bailados” de Figo ou às trivelas de Quaresma.
Vi-o no atletismo também, onde era corredor de velocidade.Lembro-me bem de quando foi seleccionado para a equipa da Europa que defrontou a Inglaterra e ensinou aos “mestres” como se joga bom futebol, derrotando-os por 4-1.
Foi o 10 dessa selecção e todos passaram a chamar-lhe o Zé da Europa. Foi, na altura, um orgulho nacional.
Não era crível que alguém se lembrasse de um jogador português para uma tal selecção. Por isso, apenas a enorme qualidade internacional do futebol de Travassos que um jornalista inglês “descobriu” para o mundo o poderá explicar. É injusto que não seja mencionado quando se fala dos grandes futebolistas mundiais, quando alguns dos que o são, em Portugal e no mundo, talvez o não mereçam tanto como ele.
Foi em Agosto de 1955 que Travassos levou o “perfume” do seu futebol inigualável até Belfast.