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Pensamentos Leoninos 100

Razão ou paixão?
Neste terceiro ano do “Projecto Soares Franco” que tem como um dos seus objectivos formar uma equipa de nível europeu, são grandes as expectativas quanto ao futuro do Sporting CP.
Aquele objectivo que a época anterior não permitiu alcançar, a não ser na oportunidade de participar em mais uma edição da mais importante competição europeia, foi desde sempre muito claro, enquanto outros do mesmo projecto se vão revelando aos poucos em peculiares AG onde se faz uma continuada transfusão de valores do Clube para a SAD.
Não há dúvida de que novos tempos se estão vivendo com a chegada da empresarialização e da globalização ao futebol profissional, ao qual muitos dos sócios deste centenário clube terão dificuldade em se adaptar por sentirem passar para mãos alheias, eventualmente movidas por interesses que nada têm a ver com o amor ao seu Sporting CP, todo o património centenário que inclui os mil sonhos de grandeza que lhes foram legados.
A última AG foi a expressão disto mesmo, um confronto entre duas facções. Uma delas, curiosamente a dos sócios menos antigos, defendeu a continuação de um Sporting CP tradicional, um clube de sócios que a ele se entregam apaixonadamente. Para eles, a maioria do Sporting CP na SAD é o retorno mínimo aceitável pelas concessões já feitas. A outra, à qual estranhamente aderiu a maioria dos sócios mais antigos e dos chamados “notáveis”, que todos julgaríamos os guardiães dos “valores morais” do clube, manifestou total apoio às propostas “materialistas” de Soares Franco. Pereceram rendidos à força dos milhões dos que, mesmo sem serem sportinguistas, querem dominar o símbolo que ao longo de 100 anos criámos e dignificámos.
São dois conceitos de futuro, mas apenas um deles preserva a autenticidade dos valores leoninos. Não vale a pena pretender que não seja assim.
Será este o rumo que os tempos impõem se desejarmos pertencer à alta-roda do futebol mundial, mas implicará renúncias difíceis de suportar sem contrapartidas que não são claras, se porventura existem, no projecto de Soares Franco. Contrapartidas que salvaguardem o sportinguismo autêntico, incompatível com os modelos que apenas adeptos do tipo “hooligan” estão dispostos a suportar. E esse não é o tipo dos adeptos leoninos que todos sabem ser os Melhores do Mundo.
É a mística criada desde a fundação e que, afinal, tem feito a diferença ao longo de 100 anos.
Uma transição muito cuidada seria necessária para a preservar.
O caminho trilhado pelo Sporting CP desde o malfadado “Projecto Roquete” é de afundamento progressivo, com prejuízos acumulados desde então. Ele foi o primeiro dos “gestores profissionais” que alguns tanto louvam, talvez porque transformam emoções em simples interesses materiais que matam a alma que possa existir nas coisas.
Há que encontrar solução para os graves problemas financeiros que foram criados, mas há sentimentos de perda para os quais a frieza dos números, por maior felicidade que queiram transmitir como solução milagrosa, não constitui alívio.
As questões foram colocadas com excessivo tecnicismo e, ainda por cima, mais parecendo que, numa AG do Sporting CP, se cuidava dos interesses da Sporting SAD. Houve, no mínimo, falta de cuidado no abordar de uma questão para a qual a Comissão Directiva do Sporting CP revelou pouca sensibilidade.
Houve, na AG, quem colocasse a questão em termos da existência ou não do Pai Natal!
Claro que o Pai Natal existe ou, pelo menos, é tão real como os resultados de certas promessas que se fazem se neles quisermos acreditar.
Eu não acredito facilmente nos sonhos que me querem fazer sonhar e prefiro acreditar no Pai Natal como símbolo de paz e de felicidade, nem que seja um dia em cada ano. Quando, definitivamente, deixarmos de acreditar no Pai Natal, seja ele quem for, deixaremos de acreditar nos sonhos que nos podem minimizar as dores causadas pela vida intensa que vivemos, pensando que podemos, por momentos, ser felizes.
Acabou-se o sonho? Talvez.
Tal como muita gente, não me sinto confortável na pele de quem paga as quotas para ser mero apoiante, sem direito a ter voz nas decisões que sejam tomadas. De resto, para que servirão as AG do Sporting CP quando for minoritário na SAD?
As acções do tipo A, tão invocadas por Soares Franco como última barreira defensiva leonina, podem ser uma miragem enganadora, pois são contrárias a regras de concorrência da UE.
Não se viu, na AG, um presidente inteiramente preocupado com o Sporting CP. Não quero duvidar do seu sportinguismo, mas não foi sportinguismo o que mostrou.
Foi isso que mais me doeu, mais do que por acreditar que há soluções de preservação dos valores sportinguistas para além das que foram apresentadas e, talvez até, sem prejuízo significativo destas. Mas disso ninguém cuidou.
Faltou preparação para esta AG que devia ter sido precedida do Congresso para “pensar o Sporting CP”.
Custa-me a acreditar que uma atitude que pode alterar drasticamente as condições iniciais de maioria do SCP na SAD, como a emissão das VMOC’s, não careça da autorização da AG do Sporting CP. Ou será que o Sporting CP não se apercebeu, desde logo, de que apenas seria maioritário na SAD enquanto esta o permitisse?
O único sportinguismo que se viveu naquela AG, o sportinguismo apaixonado, não foi, portanto, o dos “franquistas”. E para que serve um clube sem paixão?
Rui de Carvalho
Junho de 2008
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