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MARCO CHAGAS
“ Temos de manter as grandes figuras do Sporting”

Marco Chagas 

- O momento do Sporting é a transição. Acha que o Clube pode alcançar grandes objectivos em ano de Centenário?

- Tem de alcançar. No futebol, as coisas já estão marcadas, com a ausência das competições internacionais. Resta-nos vencer as duas provas

- ( Campeonato Nacional e Taça de Portugal) para que a época tenha êxito.

- Nas restantes modalidades, temos de manter as grandes figuras do Sporting. No atletismo, não se sabe o futuro de Rui Silva, Francis Obikwelu e Naide Gomes, e as notícias vindas a público são preocupantes. É um ano muito importante para a história do Clube, e será uma pena se realmente não ficamos com nada de palpável.

“ O Sporting é uma grande referência de Portugal”

Como recebeu o convite para integrar a Comissão de Honra das comemorações do I Centenário Sporting Clube de Portugal?

Marco Chagas – Recebi, com muito agrado, o convite. Foi uma satisfação para mim e para o ciclismo do Sporting, porque foi uma das modalidades mais emblemáticas do Clube. Fiquei muito contente por ter sido incluído na lista de cem personalidades e, modéstia à parte, mereço estar nesta Comissão, atendendo, infelizmente, à ausência do Joaquim Agostinho, até porque tenho particularidade de ter vencido a última Volta a Portugal conquistada para o Sporting.

- Qual a opinião acerca da passagem dos 100 anos da fundação do Sporting?

- É uma data histórica para qualquer Clube ou instituição. Pelo historial que o Clube tem, e pela dimensão que tomou em termos nacionais e internacionais, o Sporting é uma grande referência do nosso País. Ao completar cem anos, é um marco e uma viragem importante para o nosso clube. Só é pena que as coisas não estejam a correr tão bem no futebol.

- Quais os momentos que elege como os mais marcantes nestes quase 100 anos de existência do Clube?

- Ao longo da minha vida, sempre segui o Sporting. Posso dividir a história do Clube, anterior à minha ligação, com os “ cinco violinos”, que marcaram uma geração vitoriosa. O inicio do ciclismo “ leonino”, introduzido pelo Alfredo Trindade, que ajudou a criar tantos adeptos para a modalidade. Foi um dos principais obreiros a divulgar o ciclismo do Sporting e a publicitá-lo em Portugal e no estrangeiro. Depois, escolha a década de 70, em que a equipa de futebol venceu a Taça das Taças de 1963/ 64, foi uma época que me marcou. Era um miúdo, e chorava muito pelo Sporting, pois lá em casa todos eram sportinguistas. Pegando no ecletismo do Clube, que se tem desvanecido um pouco, relembro os grandes atletas como o Manuel de Oliveira, o Carlos Lopes, O Fernando Mamede, as “leoas” Lídia Faria, Eulália Mendes, Francelina Anacleto, um grupo de pessoas fantásticas que marcaram a história da modalidade. Nos últimos tempos, e porque tivemos um jejum de vitórias de futebol, destaco obviamente a conquista do Campeonato Nacional de 1999/00. Foi um alegria enorme.

- Qual é o seu desejo para este ano do Centenário Sporting?

- Normalmente, a grande referência para os Clubes em Portugal é o futebol. A maior prenda seria o Sporting sagrar-se campeão nacional.

Currículo:

Marco António Martins Chagas
Local de nascimento: Pontével
Data de nascimento: 19 de Novembro de 1956
Títulos conquistados ao serviço do Sporting: Campeão de Portugal de Fundo em Profissionais (1974, 1975 e 1985) voltas a Portugal (1985 e 1986) volta ao Alentejo (1984) circuito da Malveira (1985)
Outros títulos:
Voltas a Portugal ( 1982, Fc Porto e 1983, Mako Jeans)
Volta a África do Sul ( 1978, Selecção de Portugal)
Volta da Independência ( Brasil, 1982, Fc Porto)

“ Ser treinador tem muito que se lhe diga”

- Deixou a carreira de treinador de forma abrupta. Porquê?

- Acabei de correr em 1990 e , passado pouco tempo, fui treinar a Tensai. Ser treinador tem muito que se lhe diga. É o lidar com homens, depender dos seus resultados e ter, ou não, à sua disposição condições financeiras para fazer um bom trabalho. Tive dois anos fantásticos na Tensai porque era uma equipa jovem, com muitos corredores estreantes na Volta a Portugal. Vencemos o G.P Joaquim Agostinho, mas depois passei por uma fase dura e menos interessante na Sicasal Acral. A equipa tinha fez anos de existência, mas era um “ limão já muito espremido”. Nunca devia ter aceite o convite, porque houve um corte de despesas repentino e a estrutura ficou limitada.

-  Actualmente é comentador da RTP. É uma forma de “matar o bichinho“ do ciclismo?

- Gosto muito de fazer isso. Quando corria pelo Sporting, já fazia alguns comentários para a RTP. A partir do momento em que dei de ser treinador, fui convidado regularmente. Nos últimos tempos, o ciclismo em directo na RTP resume-se à Volta a França e a Volta a Portugal, mas é o possível em tempo de contenções. Faço também trabalhos diferentes com uma produtora, mas tenho consciência das restrições que existem em termos de acompanhamento da modalidade no nosso País.

“ Nunca escondi o meu sportinguismo”

- Teve alguma vez, ao longo da sua carreira, uma situação em que o sentimento pelo Sporting o prejudicou a nível profissional?

- Em determinado momento, sim. Talvez, pelo facto de assumir sempre o meu problema, por vezes isso criava-me alguns dissabores. Fui corredor do FCP durante dois anos, e nunca escondi o meu sportinguismo. Apesar de ter dado o último triunfo Fc Porto, com a conquista de uma volta a Portugal, é normal que nunca me tenham associado ao clube. Na minha terra, em Pontével, por vezes sinto algum distanciamento das pessoas, porque preferiam que eu tivesse corrido de vermelho e não de verde, mas nunca fui maltratado por causa de ser sportinguista.

“ O futebol acaba por consumir tudo”

- Como analisa a extinção de algumas das modalidades no Sporting, caso do “seu” ciclismo?

- As coisas alteraram-se muito com a entrada das SAD´s nos Clubes. Se calhar será um mal inevitável, ou um bem necessário. O futebol acaba por consumir tudo, e não podemos dizer que é só o nosso Clube a perdê-las, também os outros não as têm. Se quiséssemos continuar a ser diferentes, como sempre, teríamos de ter mantido as pistas de atletismo, de ciclismo ou um pavilhão de competições. O Sporting perdeu uma série de infra-estruturas para poder ser o mesmo Clube que abrangia um mundo de pessoas à volta do Estádio.

“ Continuamos a ter um ciclismo pequenino”

Marco Chagas relembrou a carreira com a camisola do Sporting e os momentos mais marcantes do ciclismo “verde e branco”

Como é que o Sporting entrou na sua vida?

Marco Chagas – Pelo meu sportinguismo, principalmente. Aos 16 anos, fiz testes em Alvalade, e também no Benfica, visto que os dois clubes demonstravam interesse, mas foi aí que pesou o meu sportinguismo. Acabei por ingressar no Sporting, e numa fase inicial de época treinei sozinho, porque o Clube não tinha equipa de populares. Fiz sete corridas como individual, sagrando-me mesmo assim Campeão Nacional de Fundo. No ano seguinte, já corria pelos juniores e em corridas no estrangeiro.

Momentos mais marcantes no ciclismo do Sporting?

Em 1974/ 75, destaco a vitória, com 17 anos, no Campeonato Nacional de Fundo, como individual, mas com ligação ao Sporting. Aos 18 anos, o primeiro título de Campeão Nacional de Fundo, já na categoria de seniores. Pelo meio, algumas competições, como a primeira presença numa Porto-Lisboa, com chegada ao Estádio José de Alvalade, que terminei num honroso décimo primeiro lugar. O regresso ao Sporting, em 1984, coincidente com um momento marcante pela negativa. A morte do Joaquim Agostinho, e o afastamento da vitória na Volta a Portugal, sendo desclassificado por alegado uso de substâncias dopantes. Pela positiva, de novo mais um título de Campeão de Portugal de Fundo em profissionais, e os dois triunfos na Volta a Portugal com a camisola do Sporting, em 1985 e 1986.

O Marco Chagas era um especialista no contra-relógio. Qual era a fórmula do sucesso para tantas vitórias?

É algo que tem a ver com as capacidades físicas do atleta. Quem tem maior capacidade aeróbica, ou seja, andar durante um determinado período de tempo quase no seu máximo, consegue averbar bons resultados.

O problema é que poucos corredores conseguem manter-se sem oscilações, porque um contra-relógio é isso mesmo, lutar contra o tempo.

Depois de Joaquim Agostinho, o ciclismo apenas voltou a ter mais recentemente um ciclista de renome internacional, o José Azevedo. O que tem faltado ao ciclismo nacional para ganhar mais protagonismo?

Continuamos a ter um ciclismo pequenino. A partir do momento em que ficámos sem o supercampeão Agostinho, houve um buraco enorme. A nossa modalidade sempre teve um problema: o facto de vivermos muito distantes do centro velocipédico da Europa, onde se passam as maiores competições. O José Azevedo é um corredor de enorme qualidade e uma figura de primeira linha na equipa Discovey, de Lance Armstrong. Mas, temos uma grande esperança, Sérgio Paulinho, que nos deu uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos e que ainda pode melhorar muito a sua performance.
 
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