O futebol é um jogo que, como qualquer outro, tem regras para ser jogado.
Existe um regulamento que define as atitudes consideradas faltosas e os castigos que lhes correspondem.
Mas todos vemos como são diversas as formas de aplicar o “regulamento” de faltas, com diferenças de critérios significativas de árbitro para árbitro e do mesmo árbitro em jogos diferentes ou até ao longo do mesmo jogo.
Esta diversidade dá lugar a injustiças que, porque o são, tiram verdade ao jogo e, conscientemente ou não, sempre prejudicam uma das equipas, beneficiando a outra ou outras até.
Não há leis perfeitas, todos sabemos. Há erros que resultam de falta de condições para bem julgar, é verdade. Mas todos sabemos, também, pelo menos porque disso tanto se fala, que algumas dessas atitudes podem ser deliberadas, ditadas por simpatias ou por antipatias, quando não mesmo por outras razões que também sabemos existirem, ou não haja quem possa vir a ser julgado por isso.
Não se deve descartar, também, a possibilidade de um julgamento apressado e, por isso, menos bem feito, como acontece num jogo que não deve ter paragens longas.
Mas o relatório que os árbitros tem de fazer é redigido com tempo, reflectido e ponderado, podendo os seus autores dar-se conta de pormenores importantes para um melhor julgamento.
Não seria sequer estranho que, em tal reflexão, se dessem conta de erros de julgamento, como decerto a todos já nos aconteceu. Menos aos árbitros, obviamente, dos quais não rezam as crónicas qualquer arrependimento.
O que se passou no jogo Leiria-Sporting, no episódio de que resultou a expulsão de Liedson é, no mínimo, muito estranho. Referimo-nos a isso oportunamente e não adiante repetir.
Hoje é fácil, através das imagens televisivas, ter a percepção quase perfeita de tudo o que se passa no jogo, dos movimentos, dos actos e até das palavras que se dizem. Sendo assim, passou o tempo em que o relatório do árbitro tem de ser, necessariamente, a verdade do que se passou.
A justiça também se faz no contraditório e, não são tão poucas assim as vezes em que julgamentos são repetidos e sentenças alteradas, num procedimento que tem em vista a procura da verdade, por mais difícil que ela seja de alcançar.
Porquê os julgamentos destes juízes tem de ser intocáveis e apenas a sua “verdade” há-de ser a verdade?
No mínimo, esta questão, tal como outras que o justifiquem, deveria ser analisada com todo o cuidado, observando todas as provas de que se disponha. Não seria, por isto, posta em causa a arbitragem porque, pelo contrário, serviria para a credibilizar.
Diz o ditado que “quem não se sente não é filho de boa gente”. Talvez por isso o Sporting está a levar tão a sério a manifestação da sua indignação e os seus protestos pelo que sucedeu em Leiria. Mas nada mais do que isso a tradição do nosso futebol permite que aconteça.
Os árbitros continuam a ser os detentores da verdade e as suas decisões definitivas, mesmo quando tudo aponta para um erro grosseiro que os relatórios, em vez de reconhecerem, justificam com explicações fantasiosas que contrariam o que foi visto.
Por isso alguém disse que “depende do que o árbitro escrever no relatório”!
Não parece ser justiça o que se passa no futebol actual, se alguma vez o foi.
Então, das regras deveria constar mais uma: “dos juízos do árbitro não haverá recurso”.
Se a lei em que se baseiam as investigações em curso é, por razões estranhas, inconstitucional, que seja deitada fora. Se as escutas telefónicas apenas traduzem a verdade dos factos em determinadas condições, que sejam apagadas. Que a lei do futebol seja a lei da selva e o mundo do futebol seja o dos espertos!